Correio Braziliense: Até porta-voz do grupo extremista palestino Hamas viu “mudança” no discurso de Barack Obama

A boa oratória aliada ao carisma de Barack Obama parece, mais uma vez, ter surtido um efeito muito além do esperado para o presidente americano. O discurso proferido na Universidade do Cairo na manhã de ontem, endereçado aos árabes e muçulmanos, foi recebido de forma bastante positiva pela grande maioria dos líderes da região e em todo o mundo. Até mesmo o grupo radical palestino Hamas reconheceu que houve “mudança” em relação ao tom adotado pelos Estados Unidos sob George W. Bush. No Irã e no Líbano, berço do grupo xiita Hezbollah, o pronunciamento foi considerado “vazio” e recebido com duras críticas.

Com foco em seis “questões”— combate à violência dos extremistas, conflito árabe-israelense, programa nuclear do Irã, democracia, direitos das mulheres e desenvolvimento econômico —, Obama propôs “um novo começo” nas relações entre os Estados Unidos e o mundo muçulmano (leia trechos ao lado). Para tentar maior aproximação com seu principal público, citou por mais de uma vez o Corão, livro sagrado do islã, lembrou que seu pai “veio de uma família queniana que inclui gerações de muçulmanos” e reconheceu que “o islã sempre fez parte da história da América”. Além disso, defendeu a criação de um Estado palestino e o fim dos assentamentos judaicos em territórios ocupados.

O esforço foi reconhecido por grande parte da comunidade islâmica. Para o presidente da Liga Árabe, Amr Mussa, Obama conseguiu mostrar que os EUA vão tratar as questões da região “com senso de equilíbrio”. “O discurso foi equilibrado e ofereceu uma nova visão da reaproximação no que diz respeito às relações com Estados islâmicos”, comentou Moussa. O presidente da Autoridade Palestina (AP), Mahmud Abbas, considerou as palavras do americano “um bom começo” e foi além na interpretação. “Foi uma clara mensagem a Israel de que uma paz justa terá por base o Estado palestino com Jerusalém como sua capital”, disse o porta-voz da AP, Nabil Abu Rdainah.

Em Israel, o discurso também foi entendido pelo governo como uma oferta de paz destinada ao mundo islâmico. “Nós compartilhamos a esperança de Obama de que o esforço americano ponha um fim ao conflito e leve ao reconhecimento pan-árabe de Israel como Estado judeu”, afirmou o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, em comunicado, que, no entanto, não mencionou a posição de Obama sobre os assentamentos.

Ceticismo Para o líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, a oratória de Obama “não é suficiente” para reparar as relações com o mundo islâmico. Segundo o religioso, “palavras, discurso e slogans” não servirão para mudar “a feia, detestável e cruel” face de Washington. Um comunicado firmado por oito facções palestinas radicais sediadas em Damasco, incluindo o Hamas, também transpirou ceticismo. “O discurso foi uma tentativa de enganar as pessoas e criar mais ilusões para melhorar a imagem agressiva da América”, pontua o texto. Mas o porta-voz do Hamas na Faixa de Gaza, Fawzi Barhoum, adotou um tom menos hostil, reconhecendo que “houve mudança” entre as visões de Obama e Bush.

“Com sua sinceridade, o presidente Obama criou uma real possibilidade para o que descreveu como um ‘novo início’ com os muçulmanos. Caberá à sua administração, nos próximos meses e anos, levar essa visão adiante com políticas tangíveis”, avalia o diretor da Brookings Institution Stephen Grand. A visão é compartilhada pelo diretor do Council on American-Islamic Relations, Ahmed Rehab. “Essa viagem mostra que o problema nas relações entre EUA e o Oriente Médio não é ideológico em sua natureza, e sim político. Isso quer dizer é possível de ser contornado, e acredito que Obama começou muito bem.”

À FRANCESA A primeira-dama Michelle Obama e as duas filhas, Sasha e Malia, se encontrarão com o presidente Barack Obama hoje em Paris, onde a família passará o fim de semana. A imprensa francesa mal disfarça o frisson — especula-se que a família terá um jantar na Torre Eiffel.

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